Gustavo Valério

O Poeta Notívago

Decassílabo

Revertendo a Morte

Ao deus que não existe não suplico
nem ao deus que existe vou suplicar.
Os deuses não são de verdade, explico!
Mas tu não deixarás de acreditar!

Por Dentro

O sonho escorregou, levou um baque
e o sonhador acordou num puxão.
Pulso acelerado, eis um breve ataque
há um choque por dentro do coração.

Ecos Genéticos

Ecoam na mente os ecos da morte
e velozmente escancaram meu corpo;
ecos retumbantes dum som mui forte,
profundo estímulo aloanticorpo…

Nanquim Vermelho

Em mil novecentos e trinta e sete
o sangue humano transformou-se em tinta
a humanidade que a todos compete
foi ignorada e loucamente extinta.

Meu Reflexo

Olho p’ra o nada e não consigo ver
além do reflexo seco que sou…
Horizonte imitado é o meu ser,
minh’alma ilimitada hibernou…

A Traição

A traição em tua porta bateu
e três vezes, o teu corpo, invadiu;
perfurou-te na noute à sangue frio,
pintou o chão de vermelho e correu…

O Cimo

O cimo celeste silencia o sino
em síntese sacra e silenciosa
sanciona sonhos na viciosa
noute suscetível ao vil destino

Quebrado

O sonho doce que se foi é santo
antecedeu a morte desejada
reconstruiu a longa e velha estrada
montou acordes do mais triste canto.

Meus Sonetos

Os meus sonetos escorrem d’um corte
dentro de mim, desde o antigo inverno;
Dele provém versos sem qualquer norte,
nascem palavras no silêncio alterno.

Tortura

Olhares pasmos, interpretativos
amargurados por grande tortura
refletem a morte, e na sepultura
espasmam os últimos sugestivos…