soneto

Borboletas

As mães das borboletas
recusam-se a voar…
De tristes ficam pretas
e perdem-se a chorar…

E tocam-se as trombetas
e o céu a lamentar
milhares de cometas…
São almas a penar!

Ouço gritos e tiros
Ambulâncias, suspiros…
E os cometas nas portas…

São as almas levadas
das crianças veladas…
Borboletas já mortas…

Gustavo Valério Ferreira

07/07/2020
quarteto

Foi No Teu Silêncio

Foi no teu silêncio
que senti o medo
tão mortal segredo
destroçando tudo…

E no teu silêncio
enxerguei tu’alma
sem perder a calma
num ruir profundo…

Foi no teu silêncio
todo o teu sorriso
sem qualquer aviso
tão funéreo, mudo…

E no teu silêncio
sufocado e fraco
apagado, opaco
eu perdi o mundo!

Gustavo Valério Ferreira

06/07/2020
soneto

O Vulto

Eu vi aquele vulto na parede
tentando proteger alguma cousa
confuso como pássaro que pousa
na vastidão da noute, mas com sede…

Naquele vulto vi sombria rede
querendo escapulir da grande lousa
com olhos rubros — fogo de quem ousa
na vastidão da noute ter mais sede!

Inerte ali fiquei amedrontado
olhando para o vulto endiabrado
mas sem nenhuma força pra detê-lo…

E o vulto num relâmpago profundo
comeu as almas vis de todo mundo
por sorte despertei do pesadelo!

Gustavo Valério Ferreira

18/06/2020
soneto

Maria

A droga sempre passageira
arrasta muitos aprendizes
na sombra duma mensageira
que os faz pensar que são felizes.

Maria mui aventureira
fingia bem as cicatrizes
vivia pelas brincadeiras
que a droga dava após as crises…

Pra ter sentido em sua vida
seu rosto (tela tão querida)
devia estar bem maquiado…

Maria não está aflita
descansa agora bem bonita
mas dentro dum caixão lacrado.

Gustavo Valério Ferreira

16/06/2020
quarteto

Defasada

Vislumbro a lua tão nublada
sozinha lá nos céus espúrios
suspensa, triste e defasada
por trás das nuvens em murmúrios…

Daqui, do mundo, preso ao nada
escrevo enquanto me torturo
ao ver a minha namorada
minguando o nosso amor tão puro.

Gustavo Valério Ferreira

15/06/2020
terceto

Carência

Na carência do amor consentimos
que o vazio pesado do peito
ultrapasse o mais alto dos cimos.

E na falta do amor liquefeito
o vazio pesado partimos
com qualquer candidato suspeito.

Conformados gastamos os mimos
esperando que façam efeito
e cansados assim nos ferimos.

Gustavo Valério Ferreira

13/06/2020
soneto

Magis Ad Summitatem

Nas belezas da vida sonhava
e sonhando queria ser nobre;
a tristeza presente na aljava
e o destino sonâmbulo e pobre…

Nas agruras da vida penava
e penando criou um alfobre
colocou a tristeza na aldrava
e o caminho do medo descobre…

Descobertas atrozes fazendo
ao fazer as escolhas precisas
formarão em seu peito um adendo:

A beleza e a tristeza são brisas
que soprando na vida vão sendo
as melhores e sérias balizas.

Gustavo Valério Ferreira

12/06/2020
soneto

Angelus Sanctus

Abraçada comigo e nervosa
No hospital esperando o momento
Já cansada com medo e chorosa
Ostentando no seio um alento…

Lacerada na sala espaçosa
Esforçando-se em muito lamento…
Descansou da labuta escabrosa!
O anjo chora no seu nascimento!

Correria na sala do parto:
— Paciente sofrendo de infarto!
Enfermeira a chorar comovida…

Deus então resolveu do seu jeito:
Recrutou-os ainda no leito
e eu fiquei desolado na vida.



O soneto acima deu um trabalho especial.
As iniciais dos versos nos quartetos
formam a frase “Anjo Ledo” (acróstico).

Gustavo Valério Ferreira

09/06/2020
soneto

Infinitus

Feroz saudade que bate no peito,
minaz desejo que cala meu sonho.
Atroz amor, castigante e suspeito
audaz carinho, dorido e medonho.

Veloz saudade, pulsar rarefeito,
tenaz desejo que louco disponho…
Algoz amor, purulento defeito
canaz carinho quiçá enfadonho…

Talvez um dia qualquer o desejo
dos teus carinhos que tanto protejo
virá calar, sutilmente, os meus gritos…

Na voz do amor que sussurra no vento
trará saudades no céu famulento
quebrando todos os meus infinitos.

Gustavo Valério Ferreira

08/06/2020
soneto

Entorpecente

Cortante qual adaga o peito fura
o teu amor singrou-me loucamente…
Tal gavião audaz na desventura
voei, chorando, ao céu entorpecente.

No meio da jornada tão escura
eu viciado em teu amor fluente
seguia pelo vale da ternura
sem distinguir a morte bem à frente…

Outrora tão feliz eu me encontrava
que me despi da dor, do véu, da trava
diante da doçura tua em molhos…

Agora bem depois da minha entrega
tua alma friamente me renega
enquanto, no caixão, me fita os olhos.

Gustavo Valério Ferreira

07/06/2020
quarteto

Dualidade

Este amor ostentado
renascendo no ser
faz o sonho encantado
desfolhar, fenecer…

Tal candor: o desgosto!
Sensação de sofrer…
É a soma do gosto
de te amar e morrer!



O poema acima é resultado de um desafio lançado pelo poeta Gabriel Zanon Garcia.

DO DESAFIO:

1. Dois quartetos com rimas soantes.

2. Defeso o uso das consoantes P e B.

3. Defeso o uso das vogais U e I graficamente.

Gustavo Valério Ferreira

06/06/2020
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