quarteto

Três Tomos

Cedendo à hora, o tempo passa lento
na solidão normal da humana lida
soprando o vendaval que a dor valida
colhendo frutos vivos desse vento…

Tragédias ou comédias são bem-vindas
em tempos idos, pálidos e caros?
Risonho o triste ri dos seus disparos
errôneos alvos, vidas vis e findas…

Por quanto tempo vemos a mentira
periclitando e bagunçando tudo?
Acordaremos desse sono mudo?
Morremos só enquanto o mundo gira…

Perdemos horas, tempos e promessas
fingindo ser aquilo que não somos.
Envelhecemos murchos em três tomos
e vemos como as vidas são possessas.

Gustavo Valério Ferreira

23/05/2020
quarteto

Espelho Milenar

Cavalgo a morte em sepulcrais caminhos
buscando sonhos nebulosos, bravos…
Desejo achar a multidão de escravos
que sofre e chora nos cordéis de espinhos…

E quando achá-la inundarei os mundos
suspensos sós em vermelhões e medos
de cantos puros, ancestrais e ledos
no espelho níveo dos mortais segundos!

Gustavo Valério Ferreira

22/05/2020
quarteto

A Bela Dama Dorme

Deitada, descansando em seus delírios
a bela dama dorme mansamente.
Desconfortável sonha e dentre os círios
passeiam ternos anjos docemente…

No sonho, flores raras floresciam
por dentro do seu peito e então brilhavam
e como supernovas reluziam
nos céus escuros que lhe atormentavam…

O sonho parecia ser eterno
pra bela dama ali, acomodada…
Que Deus com todo O Seu Amor paterno
conceda que ela não descubra nada.

A dor do sono etéreo cresceria
e não alentaria a filha amada
se descobrisse que de amor morria
seu velho pai ali na madrugada.

Gustavo Valério Ferreira

21/05/2020
quarteto

As Asas

Asas negras pairando no escuro
sob as ruas vazias e amargas…
São as asas mortais do futuro
bem abertas, sombrias e largas…

Apesar de soturnas e leves
trazem pesos e dores e invernos…
No silêncio das noites, em neves
caem sobre os casebres modernos…

Asas brancas pairando nos ares
sob as casas em choro profundo…
São as asas vitais, tissulares
equilíbrios das dores do mundo!

Gustavo Valério Ferreira

20/05/2020
quarteto

Danos Compulsórios

O peito pulsa frio como pedra…
Um medo causa danos compulsórios…
Pulmão de pus, de sangue que inda medra
aqueles sonhos belos… Provisórios?

Alertas causam pânicos e panes…
O medo pausa o peito tão descente…
Enfrente o mal de frente, não enganes…
O engano traz derrota permanente.

E o medo, a dor e o peso sufocantes?
Farás cordões vitais indivisíveis!
Terei assim vitórias confortantes?
Importa ter a vida ou sonhos críveis?

Gustavo Valério Ferreira

17/05/2020
quarteto

Terminais Incolores

Sinto o peso da morte chegando
terminais incolores e aflitos…
Pinto o rosto cismático e brando
confinado em fatais requisitos…

E sonhando com dias saudáveis
(plataformas normais de lipídios)
esse rosto requer responsáveis
que causaram brutais genocídios.

Gustavo Valério Ferreira

01/04/2020
quarteto

Sonhos Virulentos

Eu, que traço planos negativos
para acalentar os meus tormentos
vou fortalecer os meus ativos
e afastar os sonhos virulentos…

Quero transformar as dores fortes
em impulsos ágeis, mas altivos!
Superar o fardo das mil mortes
com sorrisos puros, não cativos!

Quero, na dolência, as alegrias
mais pujantes, sacras e inauditas!
E terei as vidas mil, bravias…
inda assim serão hermafroditas!

Gustavo Valério Ferreira

28/03/2020
quarteto

Peito Comprimido

Canto à morte e rasgo o peito ao meio
fujo qual jaguar que a dor castiga
busco solução mas acho briga…
Não encontro base, só receio…

O ar pesado: o peito o algoz comprime…
Olhos choram ácidos, viroses…
Sol, que sol? Que céu? Visões? Neuroses?
Nego a dor que sinto… Falso crime?

Quedo, calmo, morro e não aceito
tal pesar repleto de amargura…
Vou, a divagar ou porventura
ressurgir de dentro deste peito!

Gustavo Valério Ferreira

27/03/2020
quarteto

De Tijolo em Tijolo

Triste sonho a nascer na bateia:
lama, barro e coragem na enxada.
Muito esforço na vida plebeia
resultando no tudo ou no nada.

De tijolo em tijolo gastando
suas pétalas d’ouro de tolo…
No trabalho a penar, e penando
como grãos, a sangrar, no monjolo…

Gustavo Valério Ferreira

19/03/2020
quarteto

Amplidão

Caio nesta amplidão dolorida
fracassado por muitas batalhas…
Ilusórias vitórias na vida
são desejos vitais ou canalhas?

Mas que passo logrei na corrida
que me trouxe as angústias - navalhas?
Quero apenas uma alma florida
mesmo morta em pedaços, limalhas…

Gustavo Valério Ferreira

17/03/2020
soneto

Tristes Sonhos

Relembro quando a tua face bela
pairava em meus esparsos pensamentos;
Teus olhos quais pintura numa tela
fitando os meus, molhados, aguacentos.

E vejo a imagem terna da donzela
a dona deste amásio em sentimentos
e o tempo voa e leva-te naquela
memória doce em sopros turbulentos.

Por que me abandonaste em tristes sonhos
levando aquela voz que me acalmava
trazendo desalentos tão medonhos?

A tua imagem bela foi depor
deixando a minha mente mais escrava
da morte que eu causei ao meu amor…

Gustavo Valério Ferreira

02/03/2020
soneto

Na Casa

Aqui, na casa amarga, os meus soluços
afligem vários sonhos ilusórios
fazendo-me sentir os acessórios
da triste sina a machucar-me os pulsos…

Quem dera descansar em véus mastruços
sentir os leves ventos dilatórios
cantar de corpo e mente em auditórios
celestes, puros cantos sem rebuços!

Aqui, na casa amada, os vãos lamentos
atinam mansos sonhos barulhentos
trazendo dores cheias de mistérios…

Quem dera descansar num céu de glórias
perder-me em caminhadas meritórias
em vez dos tais tormentos deletérios!

Gustavo Valério Ferreira

24/02/2020
soneto

O Vulto Vivo

O sangue que jorrou morosamente
marcando um temporal, um infortúnio
foi resultado duma insana mente
descuido atroz durante um plenilúnio…

O mangue que formou imoralmente
o manto sepulcral dum céu netúnio
foi espelhado numa negligente
ação banal igual a de Levúnio!

Assim o sangue escorre lentamente
sanando a dor e o fel da mátria agente
que sofre mas premia os cães andejos…

No impróprio amor de agir insanamente
arranca o selo e a vida inteligente
do feto que sucumbe aos seus desejos!

Gustavo Valério Ferreira

22/02/2020
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