poema

Nato

Nas sombras dos comboios de catervas
Alguns Demônios riem das chacinas…
Trabalham para que as carnificinas
Ocultem vidas mortas em Conservas…

Não sofrem pelas guerras sem reserva,
Apenas alimentam vãs doutrinas…
Traindo suas próprias disciplinas
Ofuscam as centelhas de Minerva…

O mundo cego e já estupefato
Transmite o ódio em forma de bondade…
Assim, a nossa frágil humanidade
Não vê a morte no soldado nato…

Gustavo Valério Ferreira

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Mortos Não Morrem

Em busca do próprio destaque
Subiu um Cadáver no escuro
Querendo que um flébil ataque
Quebrasse ou rompesse meu Muro…

Coitado do Vulto inocente
Alheio à malícia discente
Alegra-se à frágil vitória…

Depois do ataque impreciso
O eco do seu prejuízo
Foi sangue sem letra ou memória…

Gustavo Valério Ferreira

poema

Cada Passo

A cada passo, um passe… Tomo posse
Do afago que me afoga no Prefácio…
O tempo-espaço passa e se contorce
Na última flor do Lácio…

Nas rotas e rotinas das Retinas
É mais fácil observar que absorver…
Pessoas têm seus Ramos, mas as rimas
Arrotam raro prazer…

Em cada passo pulsam várias sílabas…
A forte deve ser a predileta?
Nas frases soariam várias cítaras!
Mas o primata se tornou poeta…

Gustavo Valério Ferreira

poema

O Sofrimento

O sofrimento cintilante impera
No reino humano, onde o amor suspira…
A vida sofre e todo o céu delira:
A morte espreita nossa atmosfera…

A nossa mente - nosso firmamento -
Anuviada e cheia de temores,
No retumbar de lúridos tambores
Ostenta o medo mais sanguinolento…

O sofrimento que cintila, ofusca
Toda a visão do homo sapiens sapiens…
A imensidão preenche com miragens
Cada centímetro da nossa busca.

Se a vida sofre, evolui também!
Pois nossa mente é como um armazém
Guardando tudo, até a morte brusca…

Gustavo Valério Ferreira

poema

O Buraco

Nas asas da desgraça me perdi
Caindo no buraco que cavei…
À noite, tudo escuro, então, não vi
O monstro humano que me transformei…

A lua, lá no topo, me encarando
Como se eu fosse lobo ou lobisomem…
O medo, no meu peito, soluçando
Enquanto as cores mortas me consomem…

O céu é tão pequeno… Posso ver!
O escuro veste a noite de mansinho…
Estrelas são as almas que, cedinho,
Sucumbem ao terror do amanhecer…

No fundo do buraco, só, padeço
Sem descobrir jamais o meu lugar…
Percebo todo o céu a me julgar
Enquanto, lentamente, anoiteço…

Gustavo Valério Ferreira

quarteto

Corrida Volátil

Na frequência do medo, perplexo
Afundei em visões e fracassos…
No torpor do desejo e do sexo
A luxúria travou os meus passos…

Soluções arbitrárias surgiram
Pra manter-me naquele disfarce.
Mas, um dia, meus sonhos ruíram
Provocando uma enorme catarse.

E naquela visão desalmada
Descobri o maior dos engodos
Retirei, dos meus olhos, os lodos
E lancei-me no fundo do Nada!

Ao cair, revisei o passado:
De que vale viver na corrida
Por prazeres voláteis da vida
E manter-se vazio e quebrado?

Gustavo Valério Ferreira

poema

O Medo

Eis o medo que separa:
Coração que pulsa, para…

É um som que reverbera
Musicais da Nova Era…

Traz ao homem que delira
Milenares tons da Lira…

Sacra Lira que vigora
Do vazio do peito afora…

Eis o medo que sutura:
Coração sofrendo, cura.

Gustavo Valério Ferreira

poema

Futilidades

A pouca força força o homem à forca…
Na fossa, fita os olhos da frieza…
E, fraco, faz-se frágil e, já sem fôlego,
Fenece à fútil frase da Fraqueza…

Nos sonhos somos simples firmamentos…
Sonâmbulos surfando a morte à foz…
Sem forças, somos frouxos filamentos:
Flagelos fictícios dos Anzóis…

Martelos matam mais que mil heróis…
Os Mitos imorais não são modelos…
Se há mácula no manto, não há glória…
Se há glória e sangue humano, falta zelo…
Se falta zelo, falta-nos memória…

A louca força força o Homem à forca:
Enforca os seus iguais o tal Herói…
Feliz, mantém o medo que lhe mói,
Enquanto morre à míngua pela boca.

Gustavo Valério Ferreira

poema

Não Vês

Se não fosse o teu amor
Eu não seria
O homem que sou agora…

Se não fossem os teus cuidados
Eu morreria
Nos passos lentos da Hora…

Não vês que nada tenho
Exceto a ti?

Não vês que, pros meus olhos,
És Colibri…

Não vês, pois teus espelhos
Já choraram
Toda a água do mar…

Não vês, pois consumi
Todo o teu Sol…
Deixando o Horizonte
A soluçar…

Gustavo Valério Ferreira

quarteto

Prefácio da Agonia

Num pântano repleto de ossaturas
Suspenso, vi-me sob um céu vermelho…
Caindo como chuva as desventuras
Puseram-me, aos poucos, de joelho…

Eu quis aproveitar o medo e a fuga,
Fitando, tristemente, mais estrelas…
Não pude, pois o Som que me conjuga
Gangrena os meus tecidos por revê-las!

As chamas merencórias do Infinito
Acendem todo o céu, de canto a canto!
Sentindo cada verso aqui descrito
Conservo a sombra esquálida do Espanto!

Com toques imortais, a dor vazia
Acalma a minha alma soluçante…
De um lúgubre destino à poesia,
O adeus carrega o peso de um gigante…

Não lembro se perdi num crematório
As cinzas do que fui enquanto vivo…
Mas sei que em meu caminho transitório
Deixei de ser um espírito cativo!

Deitado em meu caixão, abarrotado,
Abri os olhos ante o pesadelo…
Não via nem sequer o meu legado
Nem chance de fazer algum apelo.

Rendido para sempre à eternidade
E ao medo inconsciente de outras eras,
Um surto me provoca frialdade:
É a fome celular de mil moneras!

Gustavo Valério Ferreira

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