soneto

Vela

Cadavérica morte que avança
Sob os leitos pesados do SUS,
Consumindo a cabal esperança
Dos coitados mortais que seduz…

Esquelética, fúnebre e mansa
Derramando colírios de pus
Sob olhares que esquálida lança
Entrecorta, divide e conduz…

A tal gripe que nada perdoa,
Colorindo de sangue a Coroa,
A cabeça do pobre esfacela…

Cem mil mortes, cem mil agonias!
Várias casas, famílias vazias…
Quanto custa um pacote de vela?

Gustavo Valério Ferreira

10/08/2020
soneto

Soldado Ferido

O soldado ferido lutando
Permanece sofrendo na lida.
Perde sangue, mas inda sangrando
Tece versos, clamor pela vida…

Nas diversas batalhas marchando…
Anoitece na mente perdida…
Amargores cruéis invernando,
A doença do nada surgida…

Quem enxerga o soldado na luta?
O degredo exaltando a labuta
e o soldado sozinho com Deus?

Cada verso de sua existência
São retalhos da própria decência
Conservando o caminho dos seus.

Soneto dedicado a um amigo em comum,
Hélio J Silva, poeta, que contraiu COVID-19
durante o trabalho como Guarda Civil durante a pandemia.

*Versos pares por Gabriel Zanon Garcia
*Versos ímpares por mim

Gustavo Valério Ferreira

16/07/2020
soneto

De 4 Em 4 Anos

Imensidões de sepulcrais eventos
amortalhando os musicais e os fados
nas multidões de radicais isentos
esbugalhando angelicais sagrados…

Vermelhidões e tropicais rebentos
vituperando os outonais honrados
em comunhões de capitais lamentos
assessorando os infernais em brados…

Os dramalhões disfuncionais em risos
considerando os cabedais precisos
especificam laborais exames…

Os vendilhões de cordiais favores
reconquistando comunais valores
reprecificam colossais gravames…

Gustavo Valério Ferreira

10/07/2020
soneto

Contrassenso

Amor que desmorona lentamente
na dor que se sucede devagar…
Rancor que renascendo conivente
conforta o coração a lamentar…

Humano rotulado inteligente
arfando no beiral do patamar…
Insano evoluindo vagamente
tentando nos amores se encontrar…

Quem ama desencontra-se do caos
ou cai no descaminho da aventura
e sofre no arquipélago de Naos…

Sofrendo recupera-se do medo
ou cai nos desprazeres da amargura
e vive eternamente no degredo.

Gustavo Valério Ferreira

09/07/2020
soneto

Borboletas

As mães das borboletas
recusam-se a voar…
De tristes ficam pretas
e perdem-se a chorar…

E tocam-se as trombetas
e o céu a lamentar
milhares de cometas…
São almas a penar!

Ouço gritos e tiros
Ambulâncias, suspiros…
E os cometas nas portas…

São as almas levadas
das crianças veladas…
Borboletas já mortas…

Gustavo Valério Ferreira

07/07/2020
quarteto

Foi No Teu Silêncio

Foi no teu silêncio
que senti o medo
tão mortal segredo
destroçando tudo…

E no teu silêncio
enxerguei tu’alma
sem perder a calma
num ruir profundo…

Foi no teu silêncio
todo o teu sorriso
sem qualquer aviso
tão funéreo, mudo…

E no teu silêncio
sufocado e fraco
apagado, opaco
eu perdi o mundo!

Gustavo Valério Ferreira

06/07/2020
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